O agricultor que muda o jogo

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Como se destacar e conquistar vantagens competitivas em diferentes produções do agro.

Cada área tem suas peculiaridades e uma produção que se adapta às oportunidades e demandas do mercado. Entender o negócio local é sempre muito válido, mas observar as diferenças globais e o que torna cada escolha mais direcionada pode nos preparar para os desafios com mais propriedade. Pensando nisso, conversamos com especialistas de diferentes culturas pelo mundo para compreender o que pode ser mais interessante e perigoso para cada uma delas.

Mudar um cenário não é algo simples, mas os produtores de algodão do Texas (EUA) investiram em novas variedades de sementes para conquistar uma vantagem bem significativa para seu produto, a explicação foi de Blayne Reed, mestre em entomologia e consultor há mais de 25 anos no setor.

“Não faz muito tempo, a região das Texas High Plains (planícies altas do Texas) era vista como tendo algodão de baixa qualidade devido ao clima semi-árido da região. As inovações em variedades que atendem às nossas necessidades e a boa gestão de culturas mudaram isso. As condições climáticas podem não ser totalmente favoráveis, mas nas safras mais recentes estamos entre as melhores fibras de algodão do mercado mundial. Não só teremos qualidades de fibra quase idênticas em muitos fardos do mesmo campo, mas também pouca variação em toda a região. Essa confiabilidade e consistência na qualidade da fibra é procurada no mercado mundial de fiação. 90% da nossa produção vai para exportação”, apontou o especialista.

O Texas produz cerca 45% do algodão de todo o país, com quase 2800 hectares plantados em 2017 e uma produtividade média de 366 quilos por hectare em 2017.

Estar atento ao que cada um tem de melhor para sair do lugar comum é sempre vantajoso, como explicou Julio Torrego, gestor da Labrecero SLR, empresa produtora de soja, milho, aveia, feijão, trigo e grão-de-bico em Tucuman, na Argentina. Com mais de 20 anos de experiência, a empresa compreendeu que um bom modo de se diferenciar era pela qualidade reconhecida. “Trabalhamos de maneira similar a muitos produtores de todo o mundo, mas somos certificados em três normas de qualidade. Isso certamente é uma vantagem competitiva para quem quer se destacar em um mercado tão padronizado”, contou. A mais conhecida é a certificação RTRS para soja,  conquistada em 2013 e que já abrange 1200 hectares da produção com o cumprimento dos protocolos.

Blayne Reed e a equipe da Strider

Estar à frente dos concorrentes em infraestrutura e o preparo para competir globalmente também é algo a se considerar, como explica Reggie Strickland, especialista em agronegócios e consultor para diversas empresas na Carolina do Norte, nos Estados Unidos. “Existe uma grande demanda para batata doce produzida no nosso estado na costa leste dos Estados Unidos, mas a Espanha também produz. Temos uma capacidade de armazenamento maior por aqui, então conseguimos suprir suas necessidades durante todo o ano, o que a maior parte dos produtores em outros países não conseguem. Então atendemos local e globalmente”, conta Strickland. Desde 1971 o estado é líder nos Estados Unidos, com cerca de 60% da produção de batata doce do país e mais de 38 mil hectares colhidos no ano de 2016.

A questão logística pode ser uma vantagem para o produtor norte-americano de batata doce, mas é um grande problema para a maior parte dos produtores chineses, como explica David Li, head of China IT and Digital da Syngenta. A produção agrícola da China representa 7% de todo o mundo, mas 20% da população mundial está no país, o que mostra que ainda assim existe um déficit produtivo. “Um dado bastante interessante e que as pessoas não têm muito conhecimento é de que 160 milhões de produtores da china tem até um hectare de terra produtiva no país, o que representa 90% do mercado. O agronegócio profissional, das mega fazendas, são apenas 10%. Isso significa que a maior parte da produção ainda é pequena, até mesmo para subsistência”, contou Li.

O arroz ocupa 30 milhões de hectares do país, produzindo 6.9 toneladas por hectare, o que representa quase 1/3 da produção mundial. “Os chineses amam arroz, é parte da rotina alimentar da população. A segunda maior cultura é o trigo, com 24 milhões de hectares plantados”, apontou Li. E como a questão logística se aplica a tudo isso? “Muitas vezes, a produção está em uma área longe dos grandes centros e isso causa um problema de escoamento de produção, o que causa também uma desvantagem muito grande para quem é pequeno e não consegue vender além da sua região”, conta.

Muitas vezes, quando imaginamos uma vantagem competitiva do mercado chinês, logo pensamos na mão de obra, certo? Porém, o cenário para o agro é bem diferente. “A população está cada vez mais envelhecida. A política do filho único durou 40 anos e isso tem grande impacto no país, especialmente na população economicamente ativa. Além disso, as pessoas estão se mudando para as grandes cidades, regiões longe da produção agrícola”, contou David Li. E em propriedades pequenas, não é tão simples investir em maquinário mais moderno. 

Para produtos mais delicados, como os hortifruti, a questão da mão de obra também tem um custo significativo. “Um dos maiores peso na nossa produção de batata doce é a mão de obra”, avalia Reggie Strickland. “Tudo é feito manualmente, não usamos máquinas para essa etapa e os custos trabalhistas são bem relevantes para a colheita desse produto nos Estados Unidos, principalmente se pensamos na competição com países com tributos mais baixos”, avaliou o especialista.

A competitividade global dos produtos também é parte da discussão no setor algodoeiro.

“É complexo ter de lidar com materiais de baixa qualidade tendo alta aceitação apenas pelo seu preço. E isso muitas vezes acontece pela diferença dos impostos internos de cada país. Por exemplo, a Índia e a China possuem menor área plantada de algodão que os Estados Unidos ou o Brasil, têm custos mais baixos. Queremos vestir o mundo todo e precisamos que os compradores avaliem também esses critérios”, reflete Blayne.   

A questão tributária é pesada também para o produtor de soja na Argentina, como explica Julio Torrego. “Os custos operacionais são satisfatórios para a produção, porém, a grande pressão dos impostos exige um alto rendimento para conquistarmos resultados positivos”, apontou Torrego.

Um grande ponto em comum para quase todos os entrevistados foi a possibilidade de minimizar as dificuldades operacionais com melhoria de processos, como, por exemplo, obter maior agilidade. Para a produção chinesa, Li destacou a inovação trazida pelas empresas de tecnologia do país. “Algumas empresas estão percebendo essa necessidade e trazendo a tecnologia para perto do campo e, com isso, diminuem as perdas. O investimento em plataformas de ecommerce está transformando a maneira como alguns produtores premium negociam com os interessados dentro do próprio país”, contou.

Na colheita do algodão, a produtividade para o campo veio em forma de maquinário. “Antes era necessária a presença de muitas pessoas para a colheita, descaroçamento e  processamento inicial da produção. Hoje, mesmo com altos custos, temos máquinas mais eficientes e sistemas de irrigação mais precisos, o que traz mais valor agregado ao nosso algodão”, contou Blayne.

Apesar da distância dos portos, o que dificulta um pouco a exportação, Torrego também vê um bom cenário presente e futuro para sua produção de soja em Tucuman (AR). “Temos um bom solo e consideramos que o ótimo uso de tecnologia também é importante para otimizar nosso trabalho. Sementes, controles de praga e fertilização. Investir nisso agiliza os processos”, explicou o produtor argentino.

Ter a tecnologia como aliada também é muito relevante para a produção de batata doce na Carolina do Norte (EUA). “Uma das nossas maiores vantagens competitivas é a nossa capacidade de documentar nossos procedimentos e a rastreabilidade de nossos produtos desde o início da produção até o consumidor. Estar sempre atento ao que acontece e usar os recursos de forma inteligente contribui muito para a sustentabilidade dos negócios”, concluiu Strickland.


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